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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

AMOR É UM FOGO QUE ARDE SEM SE VER


Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


Luís Vaz de Camões
(Lisboa[?], ca., 1524  Lisboa, 10 de Junho de 1580)

DE TARDE


Naquele «pic-nic» de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampamos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!
Cesário Verde


BALADA DE NEVE


Batem leve, levemente, 
como quem chama por mim. 
Será chuva? Será gente?  
Gente não é, certamente 
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:  
mas há pouco, há poucochinho,  
nem uma agulha bulia 
na quieta melancolia 
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,  
com tão estranha leveza,  
que mal se ouve, mal se sente?  
Não é chuva, nem é gente,  
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía 
do azul cinzento do céu,  
branca e leve, branca e fria... 
Há quanto tempo a não via!  
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.  
Pôs tudo da cor do linho.  
Passa gente e, quando passa,  
os passos imprime e traça 
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais 
da pobre gente que avança,  
e noto, por entre os mais,  
os traços miniaturais 
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos... 
a neve deixa inda vê-los,  
primeiro, bem definidos,  
depois, em sulcos compridos,  
porque não podia erguê-los!


Que quem já é pecador 
sofra tormentos, enfim!  
Mas as crianças, Senhor,  
porque lhes dais tanta dor?!... 
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,  
uma funda turbação 
entra em mim, fica em mim presa.  
Cai neve na Natureza 
e cai no meu coração.


Augusto Gil